Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz identificaram 33 fragmentos de proteínas do parasita Plasmodium que são conservados entre diferentes espécies e induzem respostas imunes protetoras, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma vacina multiespécie e multietapa contra a malária. A descoberta, liderada por Ricardo Gazzinelli na Fiocruz Minas, foi publicada em 1º de julho de 2026 e baseia-se em peptídeos reconhecidos por anticorpos de pessoas em áreas endêmicas com imunidade parcial. Testes em camundongos confirmaram que esses componentes geram proteção contra a infecção, superando limitações das vacinas atuais que atuam contra poucas espécies ou fases do ciclo do parasita.
Processo de identificação dos peptídeos
Os cientistas selecionaram os peptídeos após analisar amostras de indivíduos expostos ao Plasmodium vivax e ao Plasmodium falciparum em regiões endêmicas do Brasil. Esses fragmentos foram escolhidos por sua capacidade de serem reconhecidos pelo sistema imune de pessoas que desenvolveram imunidade parcial ao longo do tempo. Em seguida, os pesquisadores realizaram experimentos com camundongos, nos quais a administração dos peptídeos provocou respostas imunes capazes de reduzir a carga parasitária e impedir o avanço da doença em múltiplas etapas do ciclo de vida do parasita.
A abordagem multiespécie busca abranger tanto o P. vivax quanto o P. falciparum, os principais responsáveis por casos de malária no país e no mundo. Com isso, a estratégia pode oferecer proteção mais ampla do que as vacinas existentes, que frequentemente se concentram em uma única espécie ou fase do parasita.
Perspectivas para uma vacina mais eficaz
Ricardo Gazzinelli destacou o potencial prático da descoberta ao afirmar que os peptídeos identificados são imunogênicos e podem servir como base para novas formulações vacinais. A combinação desses componentes em uma única vacina permitiria atacar o parasita em diferentes momentos, desde a entrada no organismo até a replicação no fígado e no sangue.
Nós mostramos que esses peptídeos são imunogênicos e que eles podem ser usados para o desenvolvimento de uma vacina multiespécie e multietapa
Ricardo Gazzinelli
Os próximos passos envolvem estudos adicionais para otimizar a formulação e avaliar a segurança em modelos mais complexos, com o objetivo de avançar para ensaios clínicos em humanos. A pesquisa reforça o papel da Fiocruz na busca por soluções inovadoras contra doenças tropicais negligenciadas que ainda afetam milhões de pessoas anualmente.